De vez em
quando surge como do nada um alimento milagroso capaz de proezas inimagináveis
para os prosaicos vegetais que frequentam nossa mesa no dia a dia – no entanto
sempre haverá a chance de um deles ser o próximo eleito. A vez agora é da
laranja amarga como auxiliar nas dietas de emagrecimento graças a uma
substância chamada sinefrina que se usada em excesso pode ter efeito tóxico
para o músculo cardíaco e até causar hipertensão. Funciona como um tipo de
efedrina, encontrada nos remédios para emagrecer.
Mas a fruta é usada seguramente na fitoterapia não é de hoje e está
presente na farmacopeia de vários países – do epicarpo, das sementes, das
folhas e dos botões se extraem várias substâncias com ação farmacológica.
Felizmente de vez em quando também surge como do nada uma bacia de
alguma fruta rara em minhas mãos. Esta variedade de laranja amarga,
também chamada de limão zamboa ou azamboa, ganhei recentemente. Foi
colhida em Piracaia, na Serra da Mantiqueira, onde a planta ainda está presente
nos pomares antigos e pastos abandonados. Conta-se que no começo do século
passado uma grande plantação de zamboeiros foi instalada ali, entre as cidades
de Bragança e Joanópolis, destinada à indústria farmacêutica.
O que restou na região foram as plantas rústicas de fundo de quintal,
nunca de mercados, cujos frutos, verdolengos como cidras ou maduros na
cor de limão rosa, com polpa solta, são apreciados como compota feita com a
casca. O doce é trabalhoso, é preciso lixar a superfície para liberar aquelas
glândulas de óleo e tornar a casca mais porosa, ou descasca-se cuidadosamente
tirando só uma película para não perder a cor e o sabor. E ainda é
necessário despolpar os frutos, escavando com colher, e depois deixar
durante quase uma semana as cascas imersas em água limpa e fria, renovada
várias vezes, para tirar parte do amargor. Em compensação, é considerado por
quem conhece como um dos melhores doces caseiros de fruta. E eu assino embaixo.
Não é laranja de comer nem limão de limonada, embora possa a fruta ser
tratada dos dois jeitos por bravos de paladar. É ácida, amarga e não tem
doçura, mas é muito aromática e saborosa quando se adiciona açúcar.
Limonada de zamboa é uma das minhas preferidas, pois quando o sumo é diluído em
água bem gelada, adoçado com açúcar ou com caldo de cana, o amargor fica
discreto e funciona como uma nota refrescante. Embora não seja um fruto
suculento como o limão, não é seco como a cidra e na hora de fazer doce com a
casca dá um dó danado jogar fora o suco que não entra na receita.
Separando as sementes que são muitas, deste caldo pode-se fazer a tal da
limonada ou uma geleia que será ácida e amarga, ótima para acompanhar carne de
porco assada.
Procure compota de limão zamboa em mercearias que vendam doces
artesanais. Se encontrar um pé por aí, melhor ainda – faça seu próprio
doce, sirva com uma bolota de creme batido e nhac.
Compota de limão zamboa
2 dúzias de limão zamboa maduro
1 quilo de açúcar
1 litro de água
Lave bem os limões e lixe com lixa d´água ou ralador tipo microplane
para que a superfície fique porosa mas não perca a cor. Os descasque tirando só
uma película fina. Lave bem novamente, parta os frutos ao meio, esprema o suco
(reserve para fazer limonada) e tire a polpa usando uma colher. Coloque as
cascas numa bacia, cubra com água, coloque por cima um prato pesado para que
elas fiquem submersas, e deixe durante cinco dias em local fresco,
trocando a água umas três vezes por dia – ou sempre que puder. Escorra bem e
coloque as cascas numa panela com água limpa. Deixe ferver e jogue a água fora.
Reserve. Coloque numa panela 1 quilo de açúcar e 1 litro de água. Deixe ferver
até o açúcar derreter e coloque aí as cascas ainda quentes. Deixe cozinhar até
que a calda fique apurada e as cascas, macias e translúcidas. Se quiser,
junte 2 ou 3 cravos à calda. Coloque em vidros e guarde na geladeira.
Rende: cerca de 3 quilos
ÁGUA
COZINHANDO NACALDA
COM CREME DE LEITE BATIDO





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